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Além do bem e do mal 
Fato: Lars Von Trier conseguiu fazer um dos filmes mais importantes da história. Confesso que já há alguns dias desde que assisti “Anticristo” de Lars Von Trier, mas só agora consegui arrumar as idéias de maneira clara para dividi-las com os caros leitores do Cine Demência. Mas idéias mais claras não significam que o filme ficou mais simples de ser comentado e criticado. Na verdade, só consegui evitar as armadilhas do impulso da primeira redação e escrever com muito mais cuidado. Cuidado extremamente necessário neste caso... “Anticristo” é um filme extremamente simples e complexo ao mesmo tempo. É um conto sobre a natureza das coisas. Ou pelo menos um lado da natureza. A parte complexa reside na maneira com Trier transforma isso em experiência cinemática. Vale dizer que trata-se do trabalho mais refinado de Trier até agora. Longe da estética crua do Dogma, o filme possui uma fotografia deslumbrante, enquadramentos e cortes precisos. Muito graças à habilidade do diretor em manipular recursos digitais, perfeitamente inseridos no filme. Deveria ser referência obrigatória aos americanos esquizofrênicos e preguiçosos, viciados em CGI. Neste universo, tudo é dual. O casal em crise pela morte do filho vai à floresta na esperança de tirar a mulher da depressão. Enquanto Charlotte Gainsbourg se entrega ao emocional, Willem Dafoe é a parte racional que tenta ajudá-la. Ela é física, ele é mental; ação e reflexão; positivo e negativo. Mas não é tão simples assim. Logo em seguida outros aspectos surgem: paz e violência, bem e mal, vida e morte. “Anticristo” não aparece referenciando o personagem bíblico, no sentido católico da coisa, mas àquilo que se opõe a tudo o que a sociedade cristianizada e doutrinada tem como ideal e que, feliz ou infelizmente, existe como força de equilíbrio. A floresta, cenário e personagem do filme, não tem nada de misterioso, mágico e belo como nos contos de fadas. O filme mostra um lado duro e cruel que fazemos questão de ignorar, mas que é necessário para a manutenção da própria existência. Afinal, o que seria de Branca de Neve sem a Madrasta Má? Provavelmente uma historinha qualquer, desmerecedora de registro como tantas outras. Não quero parecer presunçoso ou arrogante, mas é necessário ter nível intelectual e emocional elevados para apreciar “Anticristo”, o que a maioria das pessoas infelizmente não possui. É um filme inteligente feito para pessoas inteligentes. Da mesma forma que Borges, Saramago e Cortázar também não podem ser considerados como literatura para as massas alienadas. É preciso inteligência para identificar símbolos, compreender a profundidade dos personagens por baixo da superfície simples e compreender que as poucas cenas de sexo explícito não têm nada de gratuito. Para não gostar de “Anticristo”, a pessoa deve ter um repertório até superior ao daqueles capazes de admirar esta obra. E é aí mesmo que podemos notar qual o nível intelectual de certos críticos que malharam o filme de uma maneira tão infantil que chega a dar pena. E eu falei, falei e não disse nada, certo? Longe do clichê, a verdade é que palavras são pobres para descrever o filme de Lars Von Trier. Então vá e assista ao filme. Não é só uma recomendação. E tão obrigação quanto assistir a um filme de Lynch ou Kubrick. Como o caso das obras destes cineastas, “Anticristo” foi além do filme para virar lenda, e Lars Von Trier é um dos maiores diretores da história.
Escrito por Tauffenbach às 22h47
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