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Macumba chinesa

Nestes últimos meses este editor pode não ter publicado nada por aqui, mas isso não quer dizer que ele tenha parado de assitir filmes. De tempos em tempos é comum aos cinéfilos experimentarem um estranho fenômeno de fixação por um gênero, tema, ator, diretor, ou qualquer coisa que o valha. No meu caso a obsessão da vez são os filmes de terror Made in Hong Kong. De uma coleção medíocre de apenas alguns poucos filmes, passamos a quase 50 exemplares do que a terra da pólvora e do camarada Mao tem a oferecer de mais chocante, repugnante e assustador em termos cinematográficos. Um desses exemplares destacou-se por... bem, na falta de palavras mais eruditas, digamos que ele se destacou por ser um filme muito, muito louco. Sem título em português, esta maravilha sobrenatural atende pelo título Boxer's Omen (1983) em inglês. Ou simplesmente Mo na língua pátria. O filme segue uma receita muito familiar aos iniciados no conceito de macumba oriental: alguém sacaneia alguém e leva uma praga no meio da cabeça. Aí o alguém amaldiçoado tem que procurar ajuda espiritual para quebrar a maldição e derrotar o mal. Mas na verdade esse não é o plot de praticamente todo e qualquer filme de kung-fu? Neste caso não é diferente. Um lutador de muay thai é amaldiçoado e vai procurar ajuda para livrar-se do encosto. Ele vai parar em um mosteiro na Tailândia e descobre um monge - já morto - que teria sido seu irmão gêmeo em uma vida passada. Então, derrotar o feitiço não serviria só a ele, mas quebraria uma cadeia maldita que se arrasta desde outras vidas e condena tanto o boxeador como o monge a existências amaldiçoadas. Pesado, não? Calma... a coisa piora. 
Porrada! Porrada! Lutadores levam rixa para fora do ringue, direto para o além! E eu cheguei a mencionar que Bolo Yeung está no filme?
E quando você pensa "Opa! O herói vai lá e vai arrebentar!", toma-se um capote moral e o espectador se vê de boca aberta diante do duelo sobrenatural mais espetacular já filmado. Em primeiro lugar, nosso herói constata que seus conhecimentos práticos de luta não servem para combater um inimigo das terras de Kardec. Antes de qualquer coisa ele deve ser iniciado. Em uma das cenas mais bonitas e intrigantes do filme, o protagonista eleva seu espírito a partir de um ritual fantástico que envolve muitos monges, um vaso e raios. Ainda que minha experiência cinematográfica esteja muito abaixo da de outros amigos blogueiros, arrisco dizer que esta cena só encontra paralelos nos filmes El Topo e A Montanha Sagrada, ambos de Alejandro Jodorowsky. 

Os passos da iniciação: muitos monges em volta de um vaso com o candidato dentro. Em seguida o monge se ilumina com as palavras de Buda, literalmente inscritas em seu corpo e alma.
Iniciado, o lutador-monge parte para a porrada espiritual. Se alguém achou que o combate mental de Jet Li com Donnie Yen em Herói era algo extremamente inovador, prepare-se. O duelo pode ser no limbo, mas tem consequências terríveis no plano físico. Mas acontece que a produção dedica-se de corpo e alma (sem trocadilho) à batalha entre o bem e o mal, de tal modo que descrever aqui não chega a arranhar a superfície ectoplásmica do evento. O que se pode fazer é contar, de maneira pontual, alguns dos melhores momentos (praticamente todos) deste evento inacreditável. Um desses momentos se dá quando o mago maligno resolve conjurar morcegos do além. Muppets descarados, partem para azucrinar a alma do monge, que acaba por derretê-los. Em outro momento uma espécie de alien é criado a partir de uma meleca verde que parece saída das entranhas de um equino com disfunção intestinal. Por acaso o alienígena (verde) constitui-se apenas de cabeça e muitos tentáculos ameaçadores. E por aí vai. A cada pancada que o monge do mal leva, ele prepara algo mais mirabolante. Não adianta, é ver para crer. 
ET phone hell!
Mas a cena teste para os estômagos bravios vem logo adiante. O mago do mal chama alguns assistentes de maldade para evocar uma entidade maligna. O problema é que o ritual para a evocação envolve mastigar alimentos nojentos e devolvê-los para que o próximo da fila possa fazer o mesmo. E a câmera não poupa detalhes. Não assista isso de forma alguma com o estômago cheio, ou ele ficará vazio antes da cena terminar. 
A entidade evocada a partir do vômito alheio. E ela ainda é capaz de materializar um jacaré assassino gigante, vejam só!
Ao final, constatamos que este seja um filme extremamente difícil de descrever (como A Montanha Sagrada) devido às inacreditáveis composições, cenários e debiloidices dos roteiristas. Mas no final filmes existem para serem vistos, não descritos. E este, honrando a tradição dos "filmes para ficar de boca aberta", merece ser visto, revisto e apresentado aos amigos. Considere então este post como uma mera, mas enfática, recomendação para assisti-lo. E aproveite para anotar tudo o que se faz no filme. Vai que você acabe amaldiçoado por um chinês. E como deu para ver no filme, macumba de encruzilhada é fichinha perto do que esses caras fazem. E para coroar, vá atrás de outras pérolas asiáticas do mesmo calibre: Bewitched (1981): Basicamente a mesma história, mas sem lutadores e sutilezas. Aqui o objetivo é o gore e as cenas de nudez. Ainda que inferior a Boxer's Omen, forma com ele um belíssimo par. Centipede Horror (1984): Magia negra com cenas repugnantes envolvendo artrópodes, insetos, aracnídeos e orifícios no corpo humano. Somente para os bravos. Black Magic (1975): Uma versão mais light de Boxer's Omen. Toma mais fôlego a partir da última meia hora, mas não decepciona. Possessed (1983): Basicamente uma versão mais hardcore de Poltergeist. Ou seja, we got a winner!
Escrito por Tauffenbach às 17h26
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