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Comodoro na Virada Cultural

 

Neste final de semana, nos dias 18 e 19 de maio, acontece mais uma edição da Virada Cultural, o mega evento organizado pela Prefeitura da Cidade de São Paulo. Dentre as já tradicionais sessões de cinema, este ano teremos uma homenagem especial ao histórico projeto de Carlos Reichenbach: as míticas Sessões do Comodoro.

A programação ocupará a sala do Cine Olido por 24 horas ininterruptas, apresentando 12 filmes, sendo 6 clássicos das Sessões de Comodoro e 6 filmes inéditos que estavam programados para futuras sessões. Leiam abaixo o texto de apresentação para o evento e a programação completa no post seguinte, incluindo sinopses e comentários do próprio Carlão! Estão todos mais que convidados para este evento histórico!


Apresentação

Tão extraordinária quanto a filmografia do diretor Carlos Reichenbach, era sua atuação cinéfila.  Carlão nunca dissociou sua atividade atrás das câmeras da sua posição como espectador, diante da tela do cinema. E isso era público: falava muito mais do cinema dos outros que do seu próprio. E usava seus filmes para falar de mais cinema. O exame de sua filmografia nos revela tantas referências e homenagens a diretores e outras produções que já valeria um livro.

Reichenbach indicava filmes e diretores a todas as pessoas que o cercavam. Parentes, amigos, colegas de trabalho, amigos de amigos e desconhecidos. “Filmes são para serem vistos”, declarou certa vez em uma entrevista. Qualquer filme. E ver com olhos livres, sempre.

Surpreendentemente, as pessoas sempre pediam por mais. Ao longo do tempo foi se provando a existência de um público extremamente carente e ansioso por se surpreender pelo cinema pouco convencional ou extremo.

Em 2004, em uma parceria histórica, Carlão e o CineSESC se uniram para criar as Sessões do Comodoro, um projeto que buscava apresentar, mensalmente, filmes que atendessem às necessidades desse público.

Não, o saudoso cine Comodoro não foi ressuscitado. As sessões em questão nasceram da vontade do CineSesc e do cineasta Carlos Reichenbach, através do seu Blog, “Reduto do Comodoro” (http://doiscorregos.blog.uol.com.br/), em recuperar o espírito prospectivo da aventura cinéfila que movia as “Sessões Malditas”, promovidas por Álvaro Moya na década de 70, no extinto Cine Maracha, as “Sessões Especiais” da salinha do Belas Artes, programadas por Bernardo Vorobov, as sessões de meia-noite do Bexiga e, sobretudo, as atuais e concorridas sessões nomeadas de “Raros”, na sala P. F. Gastal, no Centro Cultural Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, programadas por Marcus Mello e Carlos Thomaz Albornoz. (Texto de apresentação do projeto publicado no blog de Carlos Reichenbach, 2004)

O projeto durou oito anos, de 2004 a 2012, e contou com a exibição de mais de cem filmes, entre longas e curtas. Muitas sessões tornaram-se memoráveis, tanto pela raridade e ousadia dos filmes exibidos como pela massiva presença e calorosa reação do público. Público este, aliás, que se tornou assíduo e contribuiu imensamente para o sucesso do projeto. As Sessões do Comodoro tornaram-se uma referência para cinéfilos da cidade, e sua fama chegou a outros estados do país.

Carlão partiu repentinamente, em junho de 2012, deixando órfã uma legião de cinéfilos que compartilhava com ele o gosto por um cinema pouco convencional, visceral e intenso, capaz de atentar contra a apatia e a imbecilização reinante das produções comerciais no reino dos multiplexes. Também deixou, além de um repertório invejável de filmes exibidos ao longo de oito anos, dezenas de outros filmes a serem exibidos, anunciados previamente em seus blogs, nos bastidores do projeto e nas tradicionais conversas informais na porta do CineSESC.

Agora este projeto cinematográfico tão ousado e único – e tão emblemático para a cidade de São Paulo – é homenageado na Virada Cultural, com 24h de exibições no Cine Olido. Serão doze filmes, sendo seis dos filmes de maior repercussão do projeto e seis filmes inéditos que Carlos Reichenbach havia programado para futuras Sessões do Comodoro. Uma ótima oportunidade para os fiéis – como Carlão chamava os espectadores assíduos – matarem a saudade, bem como de apresentar filmes surpreendentes a uma nova geração cinéfila que não teve a oportunidade de entrar em contato com o projeto. Afinal, como diria Carlão, filmes existem para serem vistos.

Leopoldo Tauffenbach



Escrito por Tauffenbach às 23h31
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Os filmes do Comodoro na Virada Cultural

Classificação indicativa: 18 anos

18h - Santa Sangre – Dir.: Alejandro Jodorowsky, 1989 (Exibido na primeira Sessão do Comodoro em 7 de julho de 2004)

Sinopse: Um menino fica traumatizado após presenciar o pai, um dono de circo, cortar os braços de sua mãe, uma fanática líder religiosa. Internado em um manicômio, ele consegue escapar depois de anos, quando reencontra sua mãe. Juntos eles arquitetam um terrível plano para punir todos os responsáveis pelo sofrimento de ambos. Mas para isso o filho deve se converter nos braços da própria mãe.

Comentários de Carlos Reichenbach: Na acepção do termo, um vigoroso “cult-movie”. Alguns críticos o definiram como um filme de terror extraordinariamente raro que transforma o espectador na testemunha impotente do calvário de um mágico de circo enlouquecido. Fellini e Freud dividindo a mesma arena de um circo mambembe. As imagens inusitadas e surrealistas, as cores berrantes, a teatralidade exacerbada – herança das influências do “Teatro Pânico” e da ligação de Jodorowski com Fernando Arrabal – e a busca exasperada de uma estética agressiva e bizarra – onde a cor do sangue é uma constante – fazem de “Santa Sangre” uma experiência emocional que ultrapassa todos os limites da sala de projeção.


20h - Thriller – a cruel picture (Thriller – em grym film) – Dir.: Bo Arne Vibenius, 1974 (Exibido na Sessão do Comodoro de 1º de dezembro de 2004)

Sinopse: Uma garota perde a voz após ser violentada. Anos mais tarde ela é sequestrada para se tornar uma prostituta e acaba tendo o olho furado por seu captor. Quando finalmente consegue escapar, ela dá início a um treinamento intenso e massacrante para levar a cabo um sangrento e implacável plano de vingança.

Comentários de Carlos Reichenbach: Este foi um dos filmes, que reconhecidamente "gerou" “Kill Bill” (1 e 2). Nas palavras de Tarantino, "Thriller, a Cruel Picture" é "the roughest revenge movie ever made". Foi também o primeiro filme a ser banido da própria Suécia por causa de suas cenas de sexo e violência.


22h - De Repente a Escuridão (And soon the darkness) – Dir.: Robert Fuest, 1970 (Inédito na Sessão do Comodoro)

Sinopse: Duas garotas fazem uma viagem de férias à França, e resolvem seguir um roteiro que passa por belos, mas entediantes vilarejos. A certa altura as amigas acabam discutindo sobre os rumos da viajem e resolvem se separar. Surge um estranho, com intenção de ajudar as amigas a se reencontrarem, mas a realidade é que talvez ele não seja o que aparenta, e as amigas se convertem em peças de um sinistro jogo de gato e rato.

Comentários de Carlos Reichenbach: Produção inglesa de Robert Fuest, exibida no Brasil apenas na televisão. Excepcional atmosfera de tensão, que remete - em seus melhores momentos - ao cinema de Fritz Lang.


0h - Emanuelle na América (Emanuelle in America) – Dir.: Joe D’Amato, 1977 (Inédito na Sessão do Comodoro)

Sinopse: A belíssima e famosa repórter Emanuelle (interpretada por Laura Gemser) é chamada para investigar uma suposta rede de produção de filmes clandestinos, que seria financiada por milionários e políticos. Ela usará de todas as suas capacidades investigativas e, claro, seu inegável poder de sedução para desmascarar a rede e trazer toda a verdade a público.

Comentários de Carlos Reichenbach: Joe D´Amato está para a Itália assim como Oswaldo de Oliveira esteve para o cinema brasileiro. Profissional dos mil instrumentos realizou filmes de todos os gêneros e de baixo e médio custo. D´Amato filmava a sexualidade sem nenhuma culpa. D´Amato sabia muito bem a diferença entre sensualidade e sexualidade porque exercitou ambos à exaustão em seus filmes. Era mestre em transformar a mais humilde atendente da quitanda ao lado numa vestal de intensa combustão sexual na frente das câmeras.


2h - A Noite do Terror Cego (La noche del terror ciego) – Dir.: Amando de Ossorio, 1972 (Inédito na Sessão do Comodoro)

Sinopse: Duas amigas, em uma viagem de trem para Portugal, acabam se interessando pelo mesmo homem. Uma das amigas, Virginia, fica com ciúmes e subitamente resolve abandonar a viagem, saltando do trem. Ela vai parar nas ruínas de um antigo castelo, onde resolve descansar. Mas ela não sabe que ali estão enterrados os corpos de cavaleiros templários hereges, vítimas de uma maldição, e que à noite sairão de seus túmulos em busca de sangue.

Comentários de Carlos Reichenbach: Primeiro e surprendente exemplar da tetralogia dos cavaleiros templários.


4h - Visitante Q (Bisita Q) – Dir.: Takashi Miike, 2001 (Exibido na Sessão do Comodoro de 7 de junho de 2006)

Sinopse: Filmado em tom de documentário, esta pesada crítica à sociedade japonesa mostra uma família em crise formada por um pai ausente com uma abalada reputação como repórter, uma filha adolescente prostituta; um filho violento que sofre bullying na escola e uma mãe viciada em drogas. Mas a família se transforma quando um completo estranho resolve se mudar para a casa deles.

Comentários de Carlos Reichenbach: Retrato cruel, por vezes quase ofensivo, de uma família japonesa. Em apenas sete dias e ao custo irrisório de sete milhões de yens (aproximadamente 70.000 dólares), Takashi Miike rodou este drama perturbador com uma câmera de vídeo digital Sony VX 1.000, inspirando-se no absurdo fenômeno dos reality-shows da televisão. “Visitante Q” faz parte da série "Love Cinema", produzida pela companhia CineRocket. Pensado inicialmente para ser distribuído unicamente no mercado de vídeo e DVD, e estimulado pelos diversos prêmios recebidos em festivais, o filme de Takashi acabou sendo lançado em alguns cinemas. A atriz que interpreta a mãe da família é a conhecida artista de "mangá" Shungiku Uchida, que se tornou uma escritora de enorme sucesso com sua autobiografia "Father Fucker". O prestigiado site Midnight Eye elegeu “Visitante Q”, "o melhor e o pior filme de 2001"!


6h - Rock ‘n’ Roll High School – Dir.: Allan Arkush, 1979 (Exibido na Sessão do Comodoro de 4 de julho de 2007)

Sinopse: Evelyn Togar é uma mulher autoritária e repressora que assume a direção de uma escola e inicia uma campanha para banir o rock ‘n’ roll de suas dependências. Mas ela encontra a resistência da bela aluna Riff Randell, fã número 1 da banda de punk Ramones. Com o anúncio de uma apresentação da banda na cidade, a diretora Togar tem a chance de se vingar de Riff e fará de tudo para impedir que ela se encontre com seus maiores ídolos.

Comentários de Carlos Reichenbach: Considerado um dos melhores filmes já feitos sobre rock, “Rock ‘n’ Roll High School” é uma autêntica celebração do "non sense" e da algazarra. Nunca lançado comercialmente no Brasil, o filme é dirigido pelo cineasta mais admirado por seu produtor Roger Corman, Allan Arkush, que posteriormente iria assinar outra comédia genial, debochada e desmistificadora, “Get Crazy” (Na Zorra do Rock) sobre ídolos da música pop.


8h - Fascinação (Fascination) – Dir.: Jean Rollin, 1979 (Inédito na Sessão do Comodoro)

Sinopse: Um ladrão em fuga acaba buscando abrigo em um castelo, habitado por duas belas mulheres. Confiante, o ladrão resolve permanecer ali, achando que se encontra em vantagem. Mas ele não percebe que as mulheres não são tão inocentes e indefesas quanto parecem, e logo ele se verá em uma sinistra situação onde ele é a vítima.

Comentários de Carlos Reichenbach: Jean Rollin, adorado na França e na Bélgica, é o José Mojica Marins gaulês. Sua musa era a intelectual das atrizes pornográficas francesas, Brigitte Lahaie, uma loura de corpo escultural, culta e ninfomaníaca, possuía o órgão genital mais fotogênico da história do cinema. As obras primas de Rollin, produzidas a preço de banana, misturam o vampirismo primitivo e a Lesbos de almanaque com a essência poética dos autores malditos e definitivos como Gerárd de Nerval.


10h - Confissões de um Comissário de Polícia ao Procurador-Geral da República – Dir.: Damiano Damiani, 1971 (Exibido na Sessão do Comodoro de 2 de dezembro de 2009)

Sinopse: Um comissário de polícia investiga crimes envolvendo a Máfia e suas conexões com o mercado imobiliário. Durante as investigações ele acaba entrando em conflito com um procurador. Embora estejam atrás dos mesmos objetivos, seus diferentes métodos de atuação os expõem à manipulação de bandidos infiltrados nos diferentes escalões do governo.

Comentários de Carlos Reichenbach: Um dos grandes filmes políticos da década de 70. Uma autêntica aula de mise-en-scène e síntese. Damiani é o mestre dos finais desconcertantes. Damiani não busca o impacto fácil, como certos diretores "da moda" atuais. É quase impossível sair de seus filmes indiferente ou confortável.


12h - Terror nas Trevas (L'aldilà) – Dir.: Lucio Fulci, 1981 (Inédito na Sessão do Comodoro)

Sinopse: Uma mulher herda um antigo hotel e começa a reformá-lo para retomar as atividades. Mas uma série de acontecimentos bizarros a levam a investigar mais sobre a história do lugar. Ela descobre que o edifício fora construído sobre nada menos que uma das sete portas do inferno, que agora está aberta, permitindo a passagem dos mortos de volta à terra.

Comentários de Carlos Reichenbach: Com "Terror nas Trevas”, "O Segredo do Bosque dos Sonhos", "A Casa do Cemitério", "Cat in the Brain" e "Beatrice Cenci", Fulci cravou à fórceps (leia-se: sem firula, tapeçaria, arabescos, fricotagem, etc) o seu estilo áspero e único no panteão do cinema da Península.
 

14h - Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa - Dir.: Jesus Franco, (Inédito na Sessão do Comodoro)

Sinopse: Livremente inspirado nas cartas de Soror Mariana Alcoforado, o filme conta a história de uma jovem que é levada a um convento para se tornar freira. Mas na verdade o convento é somente uma fachada para adeptos de uma seita satânica, que querem entregar a jovem noviça como oferenda a seu mestre supremo: o próprio Lúcifer.

Comentários de Carlos Reichenbach: O safo dos mil filmes, Jesus Franco é frequentemente lembrado como o diretor mais prolífico da história do cinema. Pesquisadores e fãs especulam que o diretor espanhol já tenha realizado cerca de 200 filmes, alguns falam em 300, mas é provável que nem o próprio Franco saiba ao certo quantos filmes dirigiu – muitos dos quais escondido sob uma quantidade absurda (proporcional à sua filmografia) de pseudônimos. Entre as pérolas autênticas de sua vasta produção destacam-se “Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa” (com direção de arte do amigo e cineasta luso-gaúcho David Quintans), “Succubus” e “O Horrível Dr. Orloff”.


16h - Banho de Sangue (Reazione a Catena) – Dir.: Mario Bava, 1971 (Exibido última Sessão do Comodoro programada por Reichenbach, em 6 de junho de 2012)

Sinopse: Em uma baía isolada o clima de desconforto se instaura entre os habitantes por causa das ambições de um arquiteto e o conflito com uma velha condessa, proprietária de todas as terras. Após a misteriosa morte da condessa todos os habitantes passam a desconfiar uns dos outros, e os segredos mais sórdidos de cada um emergem. Mas o assassino ainda está à solta, e seu trabalho ainda não terminou, para desespero dos moradores da baía.

Comentários de Carlos Reichenbach: Um clássico do cinema de horror e do mestre Mario Bava, “Banho de Sangue” é considerado o filme que inaugura o gênero "slasher", com seus assassinos psicopatas que matam aleatoriamente.



Escrito por Tauffenbach às 23h30
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