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A revolução de Petter Baiestorf
ou como Zombio 2 se mostrou a maior obra de exploitation do cinema nacional

Petter Baiestorf mostra que nem só de pão e boas ideias vive um diretor de exploiation

Ontem, domingo, dia 23, foi o último dia da 5ª edição da mostra Cinema de Bordas, promovida pelo grupo de estudos Formas e Imagens na Comunicação Contemporânea e pelo Itaú Cultural. Infelizmente só foi possível comparecer a três sessões, mas o que importa é que pude ver filmes surpreendentes de fato como Nervo Craniano Zero, de Paulo Biscaia Filho e absolutamente revolucionários como Zombio 2: Chimarrão Zombies, de Petter Baiestorf.

Cena do filme "Nervo Craniano Zero", de Paulo Biscaia Filho

Primeiro vamos ao Nervo Craniano Zero, exibido na quinta-feira, dia 20. Para quem não sabe, Paulo Biscaia é artista multimídia e pesquisador, e está à frente da trupe Vigor Mortis. Tem uma pesquisa profunda sobre o Grand Guignol e leva isso tanto aos palcos como às telas. Nervo Craniano Zero é seu segundo longa-metragem (o primeiro foi Morgue Story: Sangue, Baiacu e Quadrinhos) e apresenta uma história original que parte da existência de um nervo que seria responsável pelo impulso criativo nos seres humanos. Entram em cena os três personagens da história: um cientista desacreditado que cria um dispositivo capaz de ativar esse nervo, uma escritora com problemas criativos e uma garota ingênua que sonha em ser cantora e fora esculachada em um programa televisivo a la American Idol. A escritora quer que o cientista implante o dispositivo nela, mas antes quer testar em uma cobaia, e usa a garota ingênua. E a partir desse mote simples Biscaia joga com questões éticas, ficção científica, gore e não se detém a essa praga chamada verossimilhança que invade o cinema fantástico de hoje em dia. Oras! Sou de uma época onde justamente a fantasia era o território livre da imaginação, onde as regras inexistiam e seres e situações fantásticas simplesmente aconteciam. Quem foi que começou a colocar regras nesse terreno e dizer que temos que ter compromisso com o mundo "real"? Biscaia usa explicações científicas de uma realidade outra para justificar as ações do médico, como retirar o coração dos pacientes submetido ao implante do dispositivo, por exemplo. Nesse sentido, Nervo Craniano Zero é um filme redentor, que coloca a ficção de volta no seu lugar. O único problema do filme é sofrer com os exageros de interpretações teatrais excessivas, mas é algo que ao menos para mim não chegou a comprometer a experiência. Até porque isso não é um problema exclusivo deste filme, mas de quase toda obra audiovisual nacional.

E então chega o domingo e a aguardada sessão de encerramento com Zombio 2, de Petter Baiestorf. Tomei contato com a obra de Baiestorf em 2005, via Carlos Reichenbach. Dali tive a oportunidade de me encontrar com Petter duas vezes, a última durante o 23º Festival Internacional de Curtas, quando exibi um de seus filmes, Manifesto Kanibaru na Lama da Tecnologia Catódica. Durante a apresentação do filme O Doce Avanço da Faca, em 2011, Petter se declarou um diretor de exploitation, um autor de gênero com liberdade suficiente para transitar pelo horror, ficção, gore, softcore e hardcore, sempre rezando pela bíblia da experimentação livre e irrestrita. Claro que isso traz alguns riscos, como o de criar obras irritantes ou inassistíveis. Mas Petter sabe disso. Ele está longe de ser ingênuo. Muito longe. Criar um filme para todos odiarem está em seus planos de dominação do mundo. E eu, honestamente, fui assistir Zombio 2 já esperando 90 minutos de provocações gratuitas. Bem... o filme é provocativo, mas é impossível não amá-lo. Verdade seja dita, Baiestorf criou uma obra-prima referencial do cinema exploitation brasileiro. Qualquer pesquisador de cinema de gênero que passe a ignorar esse filme em uma análise do cenário exploitation nacional irá se mostrar um péssimo investigador.

Leo Pyrata e Petter Baiestorf, ao lado de Leyla Buk, durante as filmagens de "Zombio 2"

Na época da realização do filme, Baiestorf convocou todo o submundo da cinefilia e cinematografia tupiniquim (eu incluso) para contribuir de alguma maneira com o filme. Por motivos profissionais não pude atender ao chamado maior do verdadeiroCinema. Mas muita gente atendeu. O grande subversivo de Minas Gerais, Leo Pyrata, logo se lançou como co-produtor do filme. Figuras carimbadas como Felipe Guerra, Cristian Verardi e Gurcius Gewdner também vieram acudir a produção. Rodrigo Aragão, que estava no meio da produção de Mar Negro, contribuiu com os efeitos de maquiagem.

A história se passa nos anos 80, quando pessoas começam a consumir erva mate contaminada por radiação e se transformar em zumbis. Um grupo de pessoas tenta sobreviver ao caos instalado, mas sem perder a oportunidade de aproveitar as coisas boas da vida. Direto ao ponto. Sem frescura nem grandes motivações morais. Do jeito que um bom exploitation deve ser.

Todos os personagens são marginais. Não há mocinhos ou vilões. Ao menos não há uma visão maniqueísta assim. Todos têm suas motivações e trabalham por elas. Klaus (interpretado por Coffin Souza, parceiro de toda vida de Baiestorf) é um vagabundo andarilho que batalha por sua cota de sexo, drogas e rock 'n roll. Chibamar Bronx é um investigador particular que só quer se dar bem, desejando que zumbis e todo resto da humanidade se exploda. Felipe Guerra e Gurcius Gewdner formam o núcleo religioso como o bispo e o devoto que acabou de abrir sua própria igreja, respectivamente. E temos Gisele Ferran como a prostituta Nilda Furacão; tão boa, mas tão boa, que toma de assalto todas as atenções cada vez que entra em cena. Se é que há algum grande defeito no filme talvez seja o magnetismo de Gisele que faz com que o espectador queira sempre mais. Mais até que os zumbis que deveriam ser o ponto central do filme. Independente de seus atributos físicos - que são explorados à exaustão no filme, para voyeur nenhum colocar defeito - seu carisma pode ser comparado ao das maiores musas de exploitation do mundo, como as estrelas de Russ Meyer, Tura Satana e Cynthia Myers, por exemplo.

Gisele Ferran, a musa

Aliás, Petter prometeu e cumpriu: Zombio 2 é uma avalanche de mulheres nuas e gore. Os zumbis são repugnantes, estraçalham suas vítimas no melhor estilo spaghetti zombies (com a licença de Osvaldo Neto), tanto quanto os personagens humanos. Seja moral ou fisicamente. Não há como não lembrar das podreiras de Umberto Lenzi, Bruno Mattei ou Andrea Bianchi. E estejam avisados para uma cena altamente grotesca envolvendo o traseiro de Coffin Souza que fez o cinema inteiro se contorcer de repulsa. Mas os zumbis também são amor: curiosamente acabam acidentalmente (?) arrancando a blusa de todas as personagens femininas do filme quando tentam atacá-las. Zumbis conectados com o inconsciente coletivo da plateia. E o diretor também, que não poupa citações e homenagens. De todos os filmes de zumbis a David Cronenberg, que tem seu nome emprestado para a empresa responsável pela contaminação. E qual o logotipo das Empresas Cronenberg? O mesmo da EC Comics, responsável pela publicação de clássicos de horror em quadrinhos como Tales From the Crypt e The Vault of Horror. E ainda há espaço para uma livre sequência ao clássico da podreira Street Trash no final. Baiestorf mostra que só aprendeu com os bons.

Zombio 2 pode apresentar alguns defeitos típicos que não interferem na apreciação. Talvez pudesse ser mais curto, já sabendo que a versão exibida na mostra apresenta um primeiro corte. Aliás, vale aqui comentar as valiosíssimas contribuições de Gurcius Gewdner ao filme. Como ator criou um personagem histriônico e verdadeiramente engraçado. Na montagem imprimiu dinamismo ao filme, sendo responsável por grande parte do prazer que envolve assisti-lo. E ainda há a curadoria da trilha sonora, assinada sob pseudônimo, e a contribuição com a música dos créditos finais, à frente da banda Abbracciare Zimbo Trio. Gurcius talvez seja hoje o melhor exemplo de artista multimídia que existe, herdeiro legítimo de Hélio Oiticica e do próprio Petter Baiestorf.

Criatura ataca criador: Zombio 2 é o melhor filme da carreira de Baiestorf

Muitos dos comentários na saída da sessão concordavam que Baiestorf estava retornando às suas origens, lá nos idos da época do VHS. Não sei dizer se seria um retorno. Talvez melhor seja falar em reinvenção ou revisitar a própria obra. Afinal o nível de maturidade criativa e técnica aqui é outro. Se antes Baiestorf podia ser visto como discípulo de Lloyd Kaufman ou Russ Meyer, agora pode ser colocado ao lado. Não faz feio nem deve absolutamente nada a nenhum deles. Minimamente justo para alguém que dedicou toda sua vida ao cinema independente e exploitation. Tua hora é agora, Petter. E Zombio 2 é o filme que redefine tudo.

PS.: e se Baiestorf é o nosso Russ Meyer, Gisele Ferran é nossa Cynthia Myers. Ponto final.



Escrito por Tauffenbach às 14h07
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